segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Descoberta anomalia térmica sob o polo sul de Marte

Com base em medições gravitacionais que fornecem pistas sobre a estrutura interna do Planeta Vermelho, o interior do hemisfério sul de Marte é cerca de 200 a 400 graus Celsius mais quente do que a metade norte do planeta e encontra-se parcialmente derretido.

© NASA (ilustração do interior quente do hemisfério sul de Marte)

Esta descoberta surpreendente acrescenta mais contexto à história marciana e aos períodos em que o planeta poderá ter apresentado condições favoráveis à vida.

Foi desenvolvido na Caltech (California Institute of Technology) um modelo que utiliza variações nos dados gravitacionais para inferir a estrutura do interior de um corpo planetário. Os pesquisadores procuraram então aplicar esse modelo à compreensão do interior de Marte. Utilizando dados recolhidos ao longo de décadas por três missões marcianas diferentes: a Mars Global Surveyor, a Mars Odyssey e a MRO (Mars Reconnaissance Orbiter), a equipe mediu pequenas variações nas velocidades destas naves espaciais e utilizou-as para reconstruir o campo gravitacional em torno de Marte.

As forças gravitacionais exercidas pelo Sol sobre Marte variam ao longo de escalas temporais sazonais, em resultado da órbita ligeiramente elíptica de Marte e da inclinação do seu eixo de rotação. Uma técnica denominada tomografia de marés mede a forma como essas assinaturas gravitacionais variam ao longo do tempo e resulta num modelo do interior do planeta.

À medida que mais dados são obtidos sobre a gravidade, é possível determinar as complexidades tridimensionais da estrutura interna de um planeta. Estas inferências, por sua vez, proporcionam um plano para conceber futuras missões e a exploração científica destes mundos. Compreender a estrutura interna dos corpos planetários ajuda a desvendar os processos que moldaram a sua formação e evolução.

À superfície, Marte é um planeta geologicamente assimétrico: o seu hemisfério sul contém montanhas imponentes e crateras profundas, enquanto o hemisfério norte é composto por planícies baixas. No novo estudo, a equipe ficou surpreendida ao descobrir que o interior de Marte também é termicamente assimétrico, o hemisfério sul é centenas de graus mais quente do que o norte. Esta nova observação sugere também explicações para outros fenômenos observados em Marte, tais como as anomalias magnéticas encontradas em minerais de ferro no sul. 

Uma anomalia térmica no manto meridional poderia significar que existia um campo magnético suficientemente forte para causar diferenças magnéticas entre o norte e o sul. Além disso, a missão InSight da NASA já tinha descoberto anteriormente que as ondas sísmicas se dissipam mais rapidamente no sul, o que poderia ser explicado se a região fosse mais quente.

É importante compreender a dicotomia observada entre o norte e o sul, pois fornece informações sobre processos que podem ter influenciado a hidrologia de Marte, incluindo a formação de bacias que podem ter contido água. Ainda não é claro o que causou a anomalia térmica, e existem várias hipóteses acerca das suas origens, incluindo um impacto gigante que liberou calor a partir do norte, convecção espontânea passada no manto sul de Marte e características geológicas espessas que impedem o excesso de calor de escapar.

Um artigo foi publicado na revista Nature.

Fonte: California Institute of Technology