O enorme aglomerado globular Omega Centauri intriga os astrônomos há décadas. Deveria estar repleto de buracos negros deixados por estrelas que explodiram, mas as evidências da sua existência são escassas.
© NASA (buraco negro próximo de estrela em Omega Centauri)
Agora, utilizando dados de arquivo do telescópio espacial Hubble e observações complementares do telescópio espacial James Webb, os astrônomos localizaram finalmente o seu primeiro buraco negro de massa estelar neste aglomerado.
A descoberta do primeiro exemplar desta população de buracos negros "desaparecidos" ajudará a aperfeiçoar as teorias atuais sobre a formação de buracos negros em ambientes como Omega Centauri.
Omega Centauri é composto por 10 milhões de estrelas ligadas gravitacionalmente. Embora a comunidade astronômica já tivesse encontrado anteriormente, com o Hubble, evidências de que um buraco negro de massa intermediária se esconde no seu centro, os modelos sugerem que este aglomerado globular também deveria conter cerca de 10.000 buracos negros menores de massa estelar.
Esta notável população de buracos negros escapou à detecção em estudos observacionais anteriores, que utilizaram o método da velocidade radial ou procuraram emissões de rádio e raios X provenientes de material caindo nos buracos negros. Esta nova descoberta recorre a uma abordagem diferente, conhecida como astrometria, para medir movimentos muito pequenos das estrelas ao longo do tempo.
Ao analisar mais de 20 anos de dados de arquivo do Hubble e incorporar dados recentes do Webb para aperfeiçoar ainda mais as suas medições astrométricas, a equipe localizou uma estrela orbitando um objeto invisível tão massivo que só pode ser um buraco negro. Apelidado de oMEGACat BH-2, é o primeiro buraco negro de massa estelar detectado em Omega Centauri e apresenta algumas características surpreendentes. O buraco negro oMEGACat BH-2 tem uma massa inferior à esperada e, juntamente com a sua estrela companheira visível, a dupla tem o período orbital mais longo de qualquer sistema binário de buracos negros conhecido até à data.
Foi possível observar o movimento da estrela visível de sequência principal que faz parte deste sistema binário, que se encontra a cerca de 18.000 anos-luz de distância, no ambiente denso de Omega Centauri. As descobertas da equipe aperfeiçoam um estudo anterior realizado por um grupo diferente de cientistas, que sugeria que este sistema binário incluía uma estrela de nêutrons.
Ao complementar os dados do Hubble da investigação anterior com medições astrométricas de arquivo do Hubble, relativas ao período de 2002 a 2023, e ao integrar dados no infravermelho próximo do Webb para melhorar a precisão, os astrônomos conseguiram determinar com maior precisão a massa da companheira escura da estrela visível, descartando a possibilidade de se tratar de uma estrela de nêutrons. Embora já era conhecido que a estrela tinha 0,78 massas solares, agora foi possível calcular a massa do buraco negro, que é de 4,46 massas solares e, por isso, demasiado grande para ser uma estrela de nêutrons. No entanto, a sua massa é muito inferior à que seria esperada num ambiente pobre em metais como o de Omega Centauri.
Com base nos dados precisos do Hubble e do Webb, a equipe conseguiu rastrear a trajetória da estrela ao longo de mais de 20 anos, durante a sua aproximação máxima ao buraco negro que a acompanha, quando se deslocava mais rapidamente pelo céu. A partir desses dados exaustivos, a equipe determinou que a estrela visível orbita oMEGACat BH-2 uma vez a cada 94 anos, tornando-o o sistema binário com um buraco negro de período mais longo jamais conhecido.
O seu longo período orbital também dá uma pista acerca da origem deste sistema binário. Provavelmente, formou-se dinamicamente, o que significa que a estrela e o seu companheiro, o buraco negro, não começaram juntos, mas sim que se encontraram neste aglomerado. Os pesquisadores calcularam que um sistema como oMEGACat BH-2 sobreviverá menos de um bilhão de anos antes de ser destruído por colisões com estrelas próximas, um período muito mais curto do que a idade do aglomerado globular, com aproximadamente 12 bilhões de anos.
A descoberta do buraco negro de massa estelar oMEGACat BH-2, com base no conjunto de dados do Hubble e do Webb, é apenas o início da busca por estas populações de buracos negros esquivos nos aglomerados globulares. O lançamento do telescópio espacial Nancy Grace Roman da NASA irá captar imagens do denso Bojo Galáctico, incluindo o Centro Galáctico, com grande regularidade, com uma resolução semelhante à do Hubble e com um campo de visão muito mais amplo, onde poderá encontrar outros sistemas binários de buracos negros.
Um artigo foi publicado no periódico The Astrophysical Journal Letters.
Fonte: NASA










