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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Uma estrela tão incrível que explode duas vezes

Uma equipe de astrônomos, utilizando diversos telescópios, incluindo o Observatório W. M. Keck em Maunakea, na Ilha Havaí, descobriu uma possível "superkilonova" que explodiu não uma, mas duas vezes.

© Caltech (ilustração de uma superkilonova)

A ilustração retrata um evento hipotético conhecido como superquilonova. Inicialmente, uma estrela massiva explode em uma supernova, gerando elementos como carbono e ferro (esquerda). Em seguida, duas estrelas de nêutrons nascem, sendo que pelo menos uma delas acredita-se ser menos massiva que o nosso Sol (centro). As estrelas de nêutrons espiralam em direção uma à outra, enviando ondas gravitacionais que se propagam pelo cosmos, antes de se fundirem em uma dramática kilonova (direita). As kilonovas semeiam o Universo com os elementos mais pesados que brilham em luz vermelha.

Essa descoberta sugere que o evento incomum pode ser a primeira superkilonova desse tipo, ou seja, uma kilonova desencadeada por uma supernova. Tal evento nunca havia sido observado. Quando as estrelas mais massivas chegam ao fim de suas vidas, elas explodem em espetaculares explosões de supernova, que semeiam o Universo com elementos mais pesados, como carbono e ferro. Outro tipo de explosão, a kilonova ocorre quando um par de estrelas densas e mortas, chamadas estrelas de nêutrons, colidem, forjando elementos ainda mais pesados, como ouro, platina e urânio. Os elementos pesados criados por ambas as explosões estão entre os blocos de construção básicos das estrelas e dos planetas.

Até o momento, apenas uma kilonova foi confirmada de forma inequívoca: um evento histórico conhecido como GW170817, ocorrido em 2017. Nesse caso, duas estrelas de nêutrons colidiram, enviando ondulações no espaço-tempo, conhecidas como ondas gravitacionais, bem como ondas de luz, através do cosmos. A explosão cósmica foi detectada em ondas gravitacionais pelo Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO) e seu parceiro europeu, o detector de ondas gravitacionais Virgo, na Itália, e em ondas de luz por dezenas de telescópios terrestres e espaciais ao redor do mundo.

O curioso caso da candidata a kilonova, AT2025ulz, é complexo e acredita-se que tenha se originado de uma explosão de supernova ocorrida horas antes, obscurecendo a visão dos astrônomos naquela ocasião e tornando o caso ainda mais complicado. Em agosto de 2025, um novo sinal de onda gravitacional foi captado pelo LIGO e pelo Virgo. Em poucos minutos, um alerta foi emitido para a comunidade astronômica contendo um mapa aproximado da fonte, sinalizando aos pesquisadores que ondas gravitacionais haviam sido registradas a partir do que parecia ser uma fusão entre dois objetos, sendo pelo menos um deles excepcionalmente pequeno.

As observações confirmaram que a erupção de luz havia se dissipado rapidamente e brilhado em comprimentos de onda vermelhos, assim como a GW170817 oito anos antes. No caso da kilonova GW170817, as cores vermelhas provinham de elementos pesados como o ouro; esses átomos possuem mais níveis de energia eletrônica do que elementos mais leves, bloqueando a luz azul, mas permitindo a passagem da luz vermelha. Então, dias após a explosão, a AT2025ulz começou a brilhar novamente, adquirir uma tonalidade azul e apresentar hidrogênio em seu espectro, todos sinais de uma supernova, e não de uma kilonova (especificamente uma supernova de colapso de núcleo e envelope despojado).

Geralmente, não se espera que supernovas de galáxias distantes gerem ondas gravitacionais suficientes para serem detectadas pelo LIGO e Virgo, enquanto as kilonovas são. Isso levou alguns astrônomos a concluir que a AT2025ulz foi desencadeada por uma supernova típica e comum, e não relacionada ao sinal de ondas gravitacionais. 

Embora AT2025ulz não se assemelhasse à kilonova clássica GW170817, também não parecia uma supernova comum. Além disso, os dados de ondas gravitacionais do LIGO e Virgo revelaram que pelo menos uma das estrelas de nêutrons na fusão era menos massiva que o nosso Sol, um indício de que uma ou duas pequenas estrelas de nêutrons poderiam ter se fundido para produzir uma kilonova.

Estrelas de nêutrons são os restos de estrelas massivas que explodem como supernovas. Acredita-se que elas tenham aproximadamente o tamanho de cerca de 22 a 30 quilômetros de diâmetro, com massas que variam de 1,2 a cerca de 3 vezes a massa do nosso Sol. Alguns teóricos propuseram maneiras pelas quais as estrelas de nêutrons poderiam ser ainda menores, com massas inferiores à do Sol, mas nenhuma foi observada até o momento.

Os teóricos invocam dois cenários para explicar como uma estrela de nêutrons poderia ser tão pequena. Num cenário, uma estrela massiva em rápida rotação explode em supernova e se divide em duas minúsculas estrelas de nêutrons subsolares num processo chamado fissão. No segundo cenário, chamado fragmentação, a estrela em rápida rotação explode novamente em supernova, mas desta vez um disco de material se forma ao redor da estrela em colapso. O material irregular do disco se coalesce em uma minúscula estrela de nêutrons, de maneira semelhante à formação de planetas. 

A única maneira que os teóricos encontraram para o nascimento de estrelas de nêutrons subsolares é durante o colapso de uma estrela com rotação muito rápida. Se essas estrelas se emparelharem e se fundirem emitindo ondas gravitacionais, é possível que tal evento seja acompanhado por uma supernova, em vez de ser visto como uma kilonova pura. Mas, embora essa teoria seja instigante e interessante de se considerar, a equipe de pesquisa ressalta que não há evidências suficientes para fazer afirmações definitivas. A única maneira de testar a teoria das superkilonovas é encontrar mais eventos desse tipo.

O estudo, liderado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, foi publicado no periódico The Astrophysical Journal Letters.

Fonte: W. M. Keck Observatory

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Nascimento de estrelas num deslumbrante jato cósmico

Uma equipe internacional de astrônomos descobriu a evidência mais inequívoca de que os poderosos jatos lançados por estrelas recém-nascidas registram de forma confiável os mais violentos episódios de crescimento de uma estrela, confirmando um modelo de longa data sobre a forma como estes jatos se propagam através do seu ambiente.

© ALMA / Hubble (SVS 13)

Uma vista "tomográfica", pelo ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), revelando como o jato protoestelar supersônico de SVS 13 interage com o meio ambiente circundante. No fundo, uma imagem do telescópio espacial Hubble mostra a cavidade esculpida pelo fluxo, juntamente com os impressionantes nós de Herbig-Haro visíveis em comprimentos de onda ópticos. A caixa na imagem do Hubble indica a região mostrada nas imagens do ALMA. A cor dos fotogramas nestas imagens indica a velocidade, que varia entre 35 km/s (vermelho) e 97 km/s (azul).

As primeiras observações com o VLA (Very Large Array) identificaram SVS 13 como um notável sistema protoestelar binário que conduz uma cadeia de "balas moleculares" de alta velocidade e choques Herbig-Haro na região de formação estelar NGC 1333, a cerca de 1.000 anos-luz da Terra.

Estas imagens contínuas do VLA identificaram as duas protoestrelas no rádio, VLA 4A e VLA 4B. Revelaram o fluxo em grande escala, o que fez deste sistema um alvo privilegiado para uma exploração mais profunda sobre a forma como as estrelas jovens lançam e colimam jatos. Este trabalho do VLA, que durou décadas, permitiu a identificação da protoestrela que alimenta o jato, agora visto com um detalhe sem precedentes.

Com base nesse legado, novas observações com o ALMA revelaram uma sequência impressionante de anéis moleculares aninhados. À medida que a velocidade observada muda, cada anel encolhe suavemente e muda de posição, traçando conchas ultrafinas, em forma de arco, com apenas algumas dezenas de unidades astronômicas de espessura e movendo-se a velocidades de até cerca de 100 km/s. Cada sequência de anéis no jato tem uma marca temporal de um surto passado, permitindo ler a história de como o material caiu sobre a jovem estrela e foi depois violentamente ejetado de volta para o seu ambiente.

Ao ajustar mais de 400 anéis individuais, foi demonstrado que que cada concha corresponde a um choque em arco de conservação de momento, conduzido por um jato estreito cuja velocidade muda com o tempo. A idade da concha mais jovem está alinhada com um poderoso surto óptico e infravermelho de SVS 13 VLA 4B no início da década de 1990, fornecendo a primeira ligação direta entre surtos de material que cai sobre uma estrela jovem e mudanças na velocidade do seu jato.

Estes resultados mostram que os jatos protoestelares preservam um registo temporal de erupções passadas, oferecendo uma nova perspectiva sobre a forma como as explosões episódicas moldam os discos que eventualmente dão origem a planetas como a Terra.

Um artigo foi publicado na revista Nature Astronomy.

Fonte: National Radio Astronomy Observatory

domingo, 28 de dezembro de 2025

Revelado o maior e mais caótico berçário de planetas já encontrado

Com o telescópio espacial Hubble, astrônomos obtiveram imagens do maior disco protoplanetário alguma vez observado em torno de uma estrela jovem.

© Hubble (IRAS 23077+6707)

Pela primeira vez em luz visível, o telescópio espacial Hubble revelou que o disco é inesperadamente caótico e turbulento, com filamentos de material que se estendem muito mais acima e abaixo do disco do que foi visto em qualquer sistema semelhante.

Estranhamente, os filamentos mais extensos só são visíveis num dos lados do disco. As descobertas constituem um novo marco para o Hubble e lançam luz sobre a maneira como os planetas podem se formar em ambientes extremos.

Localizado a cerca de 1.000 anos-luz da Terra, IRAS 23077+6707, apelidado de "Chivito de Drácula", estende-se por mais de 600 bilhões de quilômetros, 40 vezes a distância até ao limite exterior do Cinturão de Kuiper do Sistema Solar.

O disco obscurece a jovem estrela no seu interior, que os cientistas pensam poder ser uma estrela quente e massiva, ou um par de estrelas. E o enorme disco não é apenas o maior disco de formação planetária conhecido; está também se tornando num dos mais incomuns.

A alcunha "Chivito de Drácula" reflete de forma engraçada o legado dos seus pesquisadores, um da Transilvânia e outra do Uruguai, onde o prato nacional é um sanduíche chamado chivito.

O disco, visto de lado, assemelha-se a um hambúrguer, com uma faixa central escura ladeada por brilhantes camadas superiores e inferiores de poeira e gás. A altura impressionante destas características não foi a única coisa que captou a atenção dos cientistas. As novas imagens revelaram que as características semelhantes a filamentos, verticalmente imponentes, aparecem apenas num dos lados do disco, enquanto o outro lado parece ter uma orla pronunciada e não ter filamentos visíveis. Esta estrutura peculiar e assimétrica sugere que processos dinâmicos, como a recente queda de poeira e gás, ou interações com os seus arredores, estão moldando o disco.

Todos os sistemas planetários são formados a partir de discos de gás e poeira que rodeiam estrelas jovens. Com o tempo, o gás é acretado para a estrela e os planetas emergem do material remanescente. O IRAS 23077+6707 pode representar uma versão ampliada do nosso Sistema Solar primitivo, com uma massa de disco estimada em 10 a 30 vezes a de Júpiter, material suficiente para formar múltiplos gigantes gasosos. Este fato, juntamente com as novas descobertas, torna-o um caso excepcional para estudar o nascimento de sistemas planetários.

Em teoria, IRAS 23077+6707 poderia abrigar um vasto sistema planetário. Embora a formação planetária possa ser diferente em ambientes tão massivos, os processos subjacentes são provavelmente semelhantes.

Um artigo foi publicado no periódico The Astrophysical Journal.

Fonte: Harvard–Smithsonian Center for Astrophysics

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Colisões de asteroides numa estrela próxima

Tal como uns carrinhos de choque cósmicos, os cientistas pensam que os primeiros tempos do nosso Sistema Solar foram uma época de violenta desordem, com planetesimais, asteroides e cometas se chocando entre si e bombardeando a Terra, a Lua e os outros planetas interiores com detritos.

© T. Müller (ilustração da colisão de dois planetesimais)

Agora, num marco histórico, o telescópio espacial Hubble captou diretamente imagens de colisões catastróficas semelhantes num sistema planetário próximo em torno de outra estrela, Fomalhaut.

A apenas 25 anos-luz da Terra, Fomalhaut é uma das estrelas mais brilhantes do céu noturno. Localizada na constelação do Peixe Austral, é mais massiva e mais brilhante do que o Sol e está rodeada por vários cinturões de detritos poeirentos.

Em 2008, os cientistas usaram o Hubble para descobrir um candidato a planeta em torno de Fomalhaut, tornando-o o primeiro sistema estelar com um possível planeta encontrado usando luz visível. Esse objeto, chamado Fomalhaut b, parece agora ser uma nuvem de poeira disfarçada de planeta; o resultado da colisão de planetesimais. Enquanto procuravam Fomalhaut b em observações recentes do Hubble, os cientistas ficaram surpreendidos ao encontrar um segundo ponto de luz num local semelhante em torno da estrela. Chamam a este objeto "circumstellar source 2" ou "cs2", enquanto o primeiro objeto é agora conhecido como "cs1".

© P. Kallas (nuvens de poeira cs1 e cs2 ao redor da estrela Fomalhaut)

Esta imagem composta, obtida pelo telescópio espacial Hubble, mostra o anel de detritos e as nuvens de poeira cs1 e cs2 em torno da estrela Fomalhaut. A própria Fomalhaut está mascarada para permitir que as características mais tênues sejam vistas. A sua localização está marcada pela estrela branca.

A razão pela qual os astrônomos estão vendo estas duas nuvens de detritos tão próximas uma da outra é um mistério. Se as colisões entre asteroides e planetesimais fossem aleatórias, cs1 e cs2 deveriam aparecer por acaso em locais não relacionados. No entanto, estão posicionadas intrigantemente perto uma da outra ao longo da porção interior do disco de detritos exterior de Fomalhaut. Outro mistério é a razão pela qual os cientistas testemunharam estes dois eventos num período tão curto.

As colisões são fundamentais para a evolução dos sistemas planetários, mas são raras e difíceis de estudar. O aspecto interessante desta observação é que permite aos pesquisadores estimar o tamanho dos corpos em colisão e quantos deles existem no disco, informação que é quase impossível de obter por qualquer outro meio. As estimativas colocam os planetesimais que foram destruídos para criar cs1 e cs2 com apenas 60 quilômetros de diâmetro, e foi inferido que existem 300 milhões de objetos deste tipo orbitando no sistema Fomalhaut. 

A natureza transiente de Fomalhaut cs1 e cs2 coloca desafios a futuras missões espaciais que pretendam obter imagens diretas de exoplanetas. Esses telescópios podem confundir nuvens de poeira como cs1 e cs2 com planetas reais. Fomalhaut cs2 parece-se exatamente como um exoplaneta que reflete a luz estelar. 

Estando mais perto do cinturão de poeira do que cs1, a nuvem cs2 em expansão tem mais probabilidades de começar a encontrar outro material no cinturão. Isto poderia levar a uma súbita avalanche de mais poeira no sistema, o que poderia fazer com que toda a área circundante ficasse mais brilhante.

Os astrônomos irão acompanhar cs2 para detectar quaisquer alterações na sua forma, brilho e órbita ao longo do tempo. É possível que cs2 comece a ter uma forma mais oval ou cometária à medida que os grãos de poeira são empurrados para fora pela pressão da luz estelar. A equipe também vai usar o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do telescópio Eepacial James Webb para observar cs2. O NIRCam do Webb tem a capacidade de fornecer informação de cor que pode revelar o tamanho dos grãos de poeira da nuvem e a sua composição. Pode até determinar se a nuvem contém água gelada.

O Hubble e o Webb são os únicos observatórios capazes de obter este tipo de imagens. Enquanto o Hubble vê principalmente em comprimentos de onda visíveis, o Webb pode ver cs2 no infravermelho. Estes comprimentos de onda diferentes e complementares são necessários para fornecer uma ampla investigação multiespectral e uma imagem mais completa do misterioso sistema Fomalhaut e da sua rápida evolução.

Um artigo foi publicado na revista Science.

Fonte: University of California